UXSnack
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A importância das apresentações de Design

Apresentar o teu próprio trabalho não é opcional, é parte de ser designer. Como preparar, apresentar e receber feedback sem te perderes no processo.

“A designer who does not present their own work is not truly a designer.” — Mike Monteiro, Design is a Job

Esta frase é dura, mas tem fundo. Apresentar o que desenhaste é parte do trabalho, tanto como desenhar. Não é uma tarefa que se delega ao Lead, ao PM, ou ao Art Director “porque eles falam melhor”. Quando o trabalho é teu, és tu que devias falar dele.

Porque é que o designer deve apresentar o seu próprio trabalho

Quatro razões que se acumulam:

  • Cria relação com o cliente, com colegas, com a equipa. Apresentar é uma forma de te tornares visível.
  • Torna-te responsável pelo que entregaste. Não há intermediário que possa diluir as decisões que tomaste.
  • Permite às pessoas perguntarem-te diretamente. Quem desenhou tem o contexto que mais ninguém tem.
  • Treina apresentação e storytelling. Capacidades que se desenvolvem só com prática real.

Se estás a ler isto e és Art Director ou Lead de uma equipa, garante que são os designers a apresentar o seu próprio trabalho. Eles merecem o espaço e a equipa toda ganha.

Se és designer e já te aconteceu ser outra pessoa a apresentar o teu trabalho (não é assim tão incomum), tenta explicar os ganhos de seres tu a fazê-lo. Não é fácil, mas vale a pena.

Regra nº1: foca nos objetivos, não nas funcionalidades

Esta é a regra que mais me poupou tempo (e desconforto) ao longo dos anos.

Toda a apresentação deve ser preparada, criada e entregue em torno do problema que estás a resolver e dos objetivos da iniciativa. Não em torno do que parece bonito ou da feature que descobriste como construir.

O efeito secundário positivo: ao manter o foco nos objetivos, evitas comentários sobre cor de botão, espaçamento, e outras questões secundárias que descarrilam reuniões.

Preparação

Antes de avançarmos: estar nervoso é normal. É o teu organismo a sinalizar que está perante uma responsabilidade. Não conheço ninguém que não fique nervoso antes de uma apresentação importante. Vai ficando melhor com a prática, e nunca desaparece por completo.

Agenda

Apresentações são reuniões. Devem ter agenda. Permite a quem vai estar na sala antecipar o que vem, preparar materiais, e poupar tempo da própria reunião.

Uma boa agenda inclui:

  • Propósito da reunião
  • Tópicos e detalhes do que vai ser abordado
  • Resultado esperado no final
  • Tempo e atividades previstas
  • Responsabilidade de cada pessoa envolvida

Custo da reunião

Em empresas mais pequenas podes saltar este ponto. Em contexto enterprise, vale a pena pensar nisto: cada pessoa na sala tem um custo (salário, tempo, contexto que perde). Convoca apenas quem contribui ou é essencial.

A Harvard Business Review tem uma calculadora de custo de reuniões que ajuda a ter noção concreta.

Preparar a apresentação

Preparação é a fase mais importante. Apresentar Design deve ser levado a sério, esteja o teu trabalho num guardanapo ou numa apresentação polida em Figma. Algumas práticas:

  • Escreve a ideia e o objetivo da apresentação antes de abrir qualquer ferramenta de slides.
  • Partilha o esboço cedo com colegas e recolhe feedback sobre a estrutura.
  • Revê os objetivos ao longo do processo. É fácil perder-se no caminho.
  • Itera com a equipa enquanto trabalhas. Não esperes pela versão final para mostrar.
  • Faz um teste interno com a tua equipa antes da apresentação real.
  • Apresenta informalmente a uma seleção menor de stakeholders quando estiveres confiante. Os feedbacks que aparecem aqui são preciosos.
  • Ajusta com base no feedback anterior antes da apresentação principal.
  • Envia a apresentação antes da reunião, sempre que possível.

Apresentação

Esta é a parte onde introduzes o tema, explicas o que vais apresentar, e apresentas qualquer membro da equipa relevante.

Se estás a apresentar com outras pessoas, não te esqueças de as ajudar caso vejas que ficaram bloqueadas. Apoiar é parte do trabalho.

Evita apresentações exaustivas onde percorres cada detalhe do design. Foca-te em como o que estás a apresentar resolve o problema, ou em como vai ao encontro dos objetivos da iniciativa.

Pontos para reforçar durante a apresentação:

  • Atenção à postura
  • Mantém ligação visual com as pessoas para quem estás a apresentar
  • Mostra entusiasmo pelo trabalho
  • Adopta uma velocidade de discurso mais lenta do que o teu instinto pede
  • Olha para as pessoas, não para o ecrã
  • Nunca uses sarcasmo (sim, isto acontece, e é sempre mau)

Receber feedback

Preparar para receber críticas é importante, especialmente se tiveres alguém na audiência que não entenda o papel do design. Define o formato e o tipo de feedback que procuras. Pode estar na agenda, e podes reforçar no fim da apresentação.

Definir o âmbito do feedback torna mais fácil às pessoas partilharem opinião, porque criaste o espaço para isso.

Boas regras a estabelecer:

  • Evitar assunções sobre as decisões tomadas
  • Dar feedback em formato de pergunta (“o que se decidiu sobre X?”) em vez de afirmação (“X devia ser diferente”)
  • Evitar opiniões pessoais sobre estética
  • Focar no design, não no designer
  • Definir o âmbito específico do feedback (por exemplo: “foca em tom de voz e estrutura; ignora imagens e cores”)

Alguns profissionais sugerem que o feedback fique separado da reunião. Outros colocam-no no fim da apresentação.

O que tem funcionado melhor comigo: deixar uma parte curta no fim só para perguntas de clarificação, e marcar uma segunda reunião, mais curta, para feedback. Entre as duas, peço aos stakeholders para enviarem feedback por email. Isto força reflexão, evita reações impulsivas, e dá-me tempo para preparar respostas.

Para começar

Três passos para a próxima vez que apresentares:

  1. Define o objetivo da apresentação numa frase antes de abrir slides.
  2. Faz pelo menos um teste interno com a equipa.
  3. Define o âmbito do feedback explicitamente, no início e no fim.

Se algo aqui te ficou na cabeça, escreve-me.

Para complementar, há posts relacionados úteis: sobre research como base do design, sobre análise heurística com template que dá artefactos concretos para apresentar, e sobre como fazer storymapping que ajuda a estruturar narrativa.

Foto de João Ferrão

João Ferrão

Product Designer · UXSnack

Product designer focado em Design for AI e Design for Health. Partilho notas sobre os detalhes que mudam a experiência.