Patient care journeys: quando o diagnóstico demora 5 anos
O caso de IBS mostra o que acontece quando designers mapeiam o percurso real de quem vive com uma condição crónica. Lições para qualquer trabalho de design em saúde.
Parte do guia Design for Health
Há um número que apareceu na minha pesquisa de mestrado e que não me saiu mais da cabeça: pessoas com Síndrome do Intestino Irritável (IBS) podem ter sintomas durante cinco anos antes de receberem um diagnóstico oficial. Em Portugal, a espera para uma consulta de gastroenterologia pode ultrapassar 600 dias. O custo direto de IBS no Reino Unido vai a £1.2 a £2 mil milhões por ano.
Estes números só apareceram quando me sentei a desenhar o patient journey real, do primeiro sintoma à última consulta. Antes disso, parecia “demora um bocado”. Depois, percebes que há um sistema inteiro a falhar de forma previsível.
Este post é sobre o que se aprende quando se faz este trabalho. O caso é IBS porque é o meu, mas a metodologia aplica-se a qualquer condição crónica.
O que é um patient care journey
Um patient journey é a sequência de eventos pelo qual uma pessoa passa, do momento em que percebe que algo está mal até ao momento em que vive com a condição (ou já não vive). Inclui:
- Sintomas iniciais: o que sentiu, quando, como reagiu.
- Procura por ajuda: GP, urgências, internet, família.
- Diagnóstico: quando, por quem, com que confiança, com que fricção.
- Tratamento: que opções foram oferecidas, o que funcionou, o que não.
- Auto-gestão: o dia a dia entre consultas, em casa, no trabalho.
- Crises: o que acontece quando os sintomas pioram, e quem está disponível.
Mapear isto não é uma persona com uma seta linear. É um diagrama com erros, ciclos, dead-ends, pontos de espera. É feio. E é por isso que é útil: mostra o sistema como ele é, não como queremos que seja.
O caso IBS: cinco anos para chegar a “tens IBS”
Saha (2014) descreveu o percurso típico de IBS: a pessoa nota intolerâncias alimentares ou alterações nos hábitos intestinais. Vai ao GP. O GP, perante sintomas inespecíficos, hesita. Faz exames, marca outros, encaminha. Os exames excluem outras coisas (porque IBS é diagnóstico de exclusão), mas IBS em si não tem teste. Cinco anos depois, com a vida já adaptada à condição, alguém finalmente diz: tens IBS.
O que isso provoca no journey:
- Self-doubt prolongado. “Será que é a minha cabeça?”
- Estratégias de coping não-supervisionadas. Dietas restritivas, evitamento social, automedicação.
- Misdiagnosis. Tratamentos para outras coisas que não funcionam.
- Erosão de qualidade de vida. Cinco anos é uma carreira universitária inteira.
Quando finalmente chega o diagnóstico, abre-se outra fase: trial-and-error com dieta (low FODMAP, eliminações), medicação (antiespasmódicos, antidepressivos pelo eixo intestino-cérebro), terapias (CBT, mindfulness). Todas são individuais. O que funciona para um não funciona para outro.
O que o designer extrai destes mapas
Quando se mapeia este percurso, quatro coisas saltam à vista. São elas que orientam o design.
1. Pontos de fricção previsíveis. Onde é que as pessoas desistem ou ficam paradas? No IBS: a primeira consulta GP (sintomas vagos), a fase de exames de exclusão (espera longa, ansiedade), o pós-diagnóstico (sem suporte estruturado para auto-gestão).
2. Vazios de suporte. Onde é que nenhum sistema serve a pessoa? Entre consultas. Numa flare-up à 1h da manhã. Quando se tenta navegar restrições alimentares num jantar com amigos. Estes vazios são o terreno onde produtos digitais podem entrar.
3. Momentos críticos. Não todos os momentos têm o mesmo peso. Uma crise emocional após misdiagnosis, uma flare-up severa em viagem, a primeira semana após mudança de medicação. Estes são os pontos onde a interface tem de ser excelente. Os outros, onde basta funcionar.
4. Oportunidades de intervenção. Onde é que uma ferramenta digital pode fazer diferença? Tracking de sintomas para padrões. Suporte conversacional em momentos de crise. Educação sobre auto-gestão entre consultas. Comunidade peer-to-peer.
Como mapear na prática
A metodologia que usei (e que recomendo) é direta:
- Entrevistas semi-estruturadas com pacientes (5-8 pessoas chega para padrões claros). Foco em narrativa pessoal, não checklist.
- Empathy maps por pessoa: o que diz, pensa, sente, faz, em cada fase.
- Síntese: padrões que se repetem em 3+ pessoas viram pontos do journey consolidado.
- Validação: voltar a duas pessoas e perguntar “isto faz sentido para ti?”
- Visualização: um diagrama com fases, durações, atores, fricções, emoções.
Aprofundo a parte de recrutamento e ética em Desenhar com pacientes, não para. Sobre como a fase Empatize encaixa no resto do processo, ver Design Thinking em healthcare.
O que não esperes do mapa
Três avisos:
- Não é solução. É diagnóstico. Não saltes do mapa para wireframes sem passar por define + ideate.
- Não é estável. O journey muda à medida que tratamentos novos entram (apps, AI conversacional, biomarcadores). Re-mapear de tempos a tempos.
- Não é universal. O teu mapa de IBS em Portugal é diferente do mapa de IBS em São Paulo ou Berlim. Sistemas de saúde diferentes, percursos diferentes. Cuidado com generalizações.
Para começar
Três passos:
- Escolhe uma condição que conheças bem (pessoal, familiar, profissional).
- Faz três entrevistas longas com pessoas que vivem isso.
- Desenha o mapa com sintomas, consultas, exames, medicação, crises, auto-gestão.
Vais ver coisas que nem o teu PM tinha visto.
Mais sobre o pano de fundo no guia Design for Health. Sobre acessibilidade na saúde (parte importante do journey para muitos), ver Acessibilidade para além do contraste e The crucial need for designing for ageing. Sobre biodesign como abordagem complementar, ver Biodesign in healthcare practice.