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eHealth, Telemedicine, mHealth: glossário para designers

Os três termos sobrepõem-se mas não são iguais. Saber distingui-los muda o que pesquisas, com quem falas, e que regulação se aplica.

Parte do guia Design for Health

Quando comecei a pesquisar sobre design em saúde, baralhava três termos. eHealth, telemedicine e mHealth apareciam usados como sinónimos em muitos artigos, mas em fontes mais cuidadas tinham fronteiras claras.

Este post coloca-os em ordem. É curto, prático, e vale como referência para quando estiveres a fazer research em saúde digital.

eHealth: o termo guarda-chuva

eHealth é o conceito mais lato. Cobre tudo o que envolve processos eletrónicos no apoio a práticas e sistemas de saúde. Inclui:

  • Registos eletrónicos de saúde (electronic health records, EHR).
  • Prescrições eletrónicas (e-prescriptions).
  • Telemedicine (subconjunto, ver abaixo).
  • mHealth (subconjunto, ver abaixo).
  • Apps de gestão hospitalar, agendamento, faturação.
  • Plataformas de comunicação interna entre profissionais.

A definição da OMS (Organização Mundial de Saúde) é “uso de tecnologias de informação e comunicação no apoio à saúde e à gestão de saúde”. Lato propositadamente.

Quando alguém diz “trabalho em eHealth”, pode estar a desenhar qualquer coisa, desde um sistema EHR para hospitais até uma app de tracking de sintomas. Pergunta sempre o que é, dentro disto.

Telemedicine: serviços clínicos remotos

Telemedicine é o subconjunto de eHealth que cobre serviços clínicos prestados à distância. Originalmente desenvolvido para tratar pacientes em áreas remotas. Hoje é mainstream.

Inclui:

  • Teleconsultation: consulta médico-paciente por vídeo ou áudio.
  • Telemonitoring: acompanhamento remoto de sinais vitais (apneia do sono, glicemia, pressão arterial).
  • Tele-assistance: suporte clínico a profissionais que estão com o paciente fisicamente.
  • Tele-expertise: peer-review entre especialistas à distância.

Há uma tabela útil que sintetiza diferenças entre eHealth e Telemedicine (Bensemmane & Baeten, 2019):

TelemedicineeHealth
Provisão de serviços clínicos remotos.Termo mais lato; cobre todos os aspetos das práticas de saúde apoiadas por processos eletrónicos.
Inicialmente desenvolvido para tratar pacientes em áreas remotas.Envolve uso de sistemas eletrónicos para apoiar a entrega de cuidados de saúde e outros registos.
Pode incluir videoconsultas, monitorização remota, transmissão digital.Visa melhorar os serviços que profissionais de saúde prestam aos pacientes.

Telemedicine é o que mais cresceu durante a pandemia de COVID-19. Vai continuar a crescer, principalmente em zonas com acesso limitado a especialistas.

mHealth: saúde no mobile

mHealth (mobile health) é o subconjunto que vive em mobile: smartphones, tablets, wearables, sensores conectados.

Inclui:

  • Apps de tracking de sintomas, medicação, atividade física.
  • Apps de educação em saúde.
  • Wearables com sensores (Apple Watch, Fitbit, Oura).
  • Apps de telemedicine que correm em mobile.
  • SMS-based interventions em contextos com baixa penetração de smartphone.

Em termos de overlap, mHealth é frequentemente parte de telemedicine (uma app que faz teleconsulta) e sempre parte de eHealth.

A nuance: mHealth tem desafios específicos por causa do form factor (ecrã pequeno, contexto móvel, bateria, sensores). Designar para mHealth pede heurísticas adicionais que se cruzam com Acessibilidade para além do contraste.

Visualização das relações

Em diagrama de Venn:

  • eHealth é o círculo grande.
  • Telemedicine é um subconjunto a meio (cobre serviços clínicos remotos).
  • mHealth atravessa eHealth e telemedicine (apps mobile que podem ou não envolver clínica).

Há também outras categorias dentro de eHealth que não são telemedicine nem mHealth:

  • EHR (registos eletrónicos).
  • e-prescriptions (prescrição eletrónica).
  • Public health surveillance (vigilância epidemiológica digital).

Por que é que a distinção importa para designers

Três razões práticas:

1. Regulação muda. Telemedicine, em muitos países, tem regulação específica (médicos licenciados, jurisdição, faturação). eHealth lato sensu tem regulação mais leve. mHealth pode cair em regulação de dispositivos médicos (MDR na UE, FDA nos EUA) se fizer claims clínicos.

2. Stakeholders mudam. Em telemedicine há médicos, hospitais, seguradoras. Em mHealth pode ser só o utilizador e a app. Em EHR são profissionais clínicos e administradores hospitalares. Cada combinação muda quem entrevistas, quem aprova, quem paga.

3. Design heuristics mudam. Telemedicine herda padrões de software clínico (denso, jargão, fluxos legais). mHealth herda padrões de consumer apps (ligeiro, gestos, notificações). EHR é uma categoria à parte com problemas próprios de UX (erros caros, multitasking severo, fricção administrativa).

Para começar

Quando começares um projeto de saúde digital, pergunta:

  1. Em que subconjunto cai? eHealth genérico, telemedicine, mHealth, EHR, outro?
  2. Que stakeholders estão envolvidos? Pacientes, médicos, hospitais, seguradoras, regulador?
  3. Que regulação se aplica? GDPR, MDR, FDA, normas locais?
  4. Que padrões de design são relevantes? Apple HIG, Material, padrões clínicos, IEC 62366 (engenharia de usabilidade para dispositivos médicos)?

Mais sobre o pano de fundo no guia Design for Health. Sobre como mapear o utilizador final destes sistemas, ver Patient care journeys. Sobre a metodologia de research, ver Desenhar com pacientes, não para. Sobre a parte de AI conversacional em saúde digital (que cruza estas categorias), ver Máximas de Grice.

Foto de João Ferrão

João Ferrão

Product Designer · UXSnack

Product designer focado em Design for AI e Design for Health. Partilho notas sobre os detalhes que mudam a experiência.