Guia
Inclusão e Diversidade
Um guia para Product Designers sobre inclusão e diversidade no produto: comunicação, relações de trabalho, acessibilidade, formulários, sensibilidade cultural e vieses cognitivos.
Porquê isto importa
Nós, designers, escolhemos centenas de pequenas coisas todos os dias: que palavra meter no botão, que pronome usar no email automático, se o formulário oferece “outro”, que cor de pele escolher na ilustração, que símbolo significa emergência. Cada uma dessas escolhas inclui ou exclui alguém.
Quando estas decisões correm bem, ninguém repara, é o objetivo. Quando correm mal, há sempre alguém a sentir que o produto não foi feito a pensar nele. Esta página é um guia prático para tornar mais escolhas conscientes, e menos por defeito.
A talk em que isto se baseia foi dada no Talkdesk: cobre comunicação, relações de trabalho e design. Aqui consolido em pillar e abro para os posts onde aprofundo cada tema.
Os três pilares
Quando trabalhei na equipa de Unified Communications no Talkdesk, organizámos o tema em três círculos que continuam a fazer sentido:
- Comunicação. Como falamos com utilizadores, clientes, stakeholders externos. É o que aparece em emails, em entrevistas, em copy.
- Relações de trabalho. Como nos tratamos uns aos outros internamente. Pronomes, espaço para discordar, partilha de conhecimento.
- Design. As decisões que tomamos no produto. Cores, fontes, formulários, símbolos, idioma.
Os três circulam-se. Uma equipa que comunica externamente com cuidado mas internamente com indiferença não vai produzir design inclusivo por acidente. E vice-versa.
Comunicação inclusiva
A regra mais útil que aprendi: quando estás em dúvida, pergunta. Em particular sobre nomes, pronomes, pronúncias.
Há um teste simples para saber se uma pergunta vale a pena: imagina que estás a falar com um estranho que acabaste de conhecer. Farias essa pergunta? Se não, provavelmente também não vale a pena fazer aqui. Se sim, então fazes, sem rodeios.
A linguagem com que falamos com utilizadores externamente, em emails, scripts de entrevista, copy de produto, importa tanto quanto o que dizemos uns aos outros. Cobre-se em Linguagem inclusiva no design e em Formulários inclusivos: perguntar sem excluir.
Relações de trabalho
Há decisões pequenas que mudam o tom de uma equipa:
- Mostrar pronomes em Slack, em meetings, no software. Não para fazer statement, mas para normalizar o gesto. Quando todos mostram, quem precisa não tem de fazer um movimento solitário.
- Tratar como cada pessoa quer ser tratada. Eu, no Talkdesk, prefiro ser chamado pelo apelido, Ferrão, em vez do primeiro nome. Não foi automático, foi pedido. E foi respeitado.
- Espaço para errar e corrigir. Toda a gente vai errar pronomes, vai dizer algo desajeitado. O que importa é a cultura à volta: se o erro é punido com vergonha, ninguém aprende. Se é corrigido sem drama, todos avançam.
- Book club ou momento semanal de partilha. Aprendizagem em grupo sobre temas que ninguém é expert (dislexia, neurodiversidade, design para luto). É barato e funciona.
- Usar “nós” em vez de “eu”. Pequena mudança, muda o eixo de uma conversa.
Aprofundo em Equipa de design inclusiva: dos pronomes à pertença.
Design inclusivo
Aqui é onde o instinto designer entra. As três áreas mais imediatas:
Acessibilidade. Vai além de contrastes de cor e tamanhos de fonte. Inclui acessibilidade cognitiva, particularmente dislexia (mais espaçamento, contraste mais baixo), perceção auditiva, e leitores de ecrã. Cobre-se em Acessibilidade para além do contraste.
Sensibilidade cultural. Símbolos não são universais. Uma cruz vermelha, símbolo de emergência em muitas culturas, pode ofender em outras (cultura muçulmana, por exemplo, onde a cruz tem outras conotações). No Talkdesk, ao desenharmos uma feature de chamada para serviços de emergência, descobrimos isto a tempo e mudámos para texto simples (“9/11”). Estes momentos são raros, mas críticos. Mais em Sensibilidade cultural no design de produto.
Formulários inclusivos. Talvez a área onde o design tem mais impacto e menos atenção. Perguntar género com radio buttons “Masculino/Feminino” exclui quem não se vê em nenhuma. A solução não é só adicionar “Outro”: é repensar se a pergunta é necessária, e quando é, dar opção de “prefiro não dizer” e self-describe. Em Formulários inclusivos.
Linguagem: pequenas substituições
Lista prática para o dia a dia. Funciona em emails, em copy de produto, em entrevistas, em apresentações:
- “boyfriend / girlfriend / wife / husband” → “partner” ou “spouse”
- “he / him / she / her” → “they / them” quando não sabes
- “manpower” → “people power”, “staff”, “workforce”
- “salesman” → “salesperson”
- “chairman” → “chair” ou “chairperson”
- “guys” (em grupo misto) → “everyone”, “folks”, “people”
Não é sobre policiar. É sobre default mais inclusivo. Quem prefere outra forma diz, e respeita-se.
Vieses cognitivos: o lado oculto
Muitos dos problemas de inclusão que vemos nos produtos não vêm de má fé. Vêm de processos automáticos do nosso cérebro: vieses cognitivos. Há cerca de 188 catalogados, e os que mais afetam decisões de design incluem:
- Confirmation bias: procurar evidência que confirma o que já pensamos.
- Group attribution error: julgar um grupo inteiro pela impressão de uma pessoa.
- Halo effect: a primeira impressão tinge tudo o que vem depois.
- Misinformation effect: a forma como a pergunta muda a memória da resposta.
- Bystander effect: ninguém age porque assume que outro o vai fazer.
- Gender bias: assumir características baseadas no género (estudos médicos mostram que dor é tratada de forma diferente em homens e mulheres, sem base científica).
Aprofundo em Vieses cognitivos explicados (lá há a lista expandida com mitigação prática).
Por onde começar esta semana
Três passos concretos:
- Audita um formulário do teu produto. Quantas perguntas são mesmo necessárias? Quantas têm “prefiro não dizer”? Quantas obrigam a escolher um género binário?
- Adiciona pronomes ao teu perfil de Slack ou email. Não tens de explicar. Só de fazer.
- Escolhe um símbolo que usas no produto e pergunta a alguém de outra cultura como o lê. É um teste de 30 segundos, e às vezes salva-te de uma má decisão.
Perguntas frequentes
O que é inclusão no design de produto?
Garantir que produtos, equipas e processos acolhem pessoas em toda a sua variedade. Cobre comunicação, relações de trabalho, e decisões de design (linguagem, formulários, símbolos, cores).
Como aplicar linguagem inclusiva?
Escolher um default neutro: “they” em vez de “he/she”, “partner” em vez de “marido/esposa”, person-first language. Não policiar palavras, mas escolher um default mais inclusivo e deixar quem prefere outra forma pedir. Mais em Linguagem inclusiva no design.
O que é um formulário inclusivo?
Pergunta só o necessário, oferece “prefiro não dizer” em campos sensíveis, permite self-describe, aceita nomes Unicode com qualquer comprimento, mensagens de erro úteis sem perder o estado preenchido. Aprofundo em Formulários inclusivos: perguntar sem excluir.
Como cuidar da sensibilidade cultural?
Pesquisar conotações de símbolos, cores e datas em pelo menos 5 culturas relevantes para o produto. Review com pessoas de outras culturas. Defaults conservadores quando há dúvida. Caso real em Sensibilidade cultural no design de produto.
Como vieses cognitivos afetam o design?
Halo Effect, Confirmation Bias, Group Attribution Error e outros operam em cascata na contratação, no research, na linguagem. Mitigação pede inclusão de viewpoints externos, desafio dos próprios pressupostos, e não decidir sob pressão. Detalhe em Vieses cognitivos explicados.
Para acabar
Inclusão não é um projeto que se acaba. É uma prática que se mantém. Se algo aqui te ficou na cabeça, escreve.
Leitura do UXSnack
Equipa de design inclusiva: dos pronomes à pertença
A cultura interna de uma equipa aparece no produto que entrega. Como cultivar uma equipa que produz design inclusivo por defeito.
Sensibilidade cultural no design de produto
Símbolos, cores, datas, e referências carregam significados diferentes em culturas diferentes. Como apanhar isto antes do produto ir para fora.
Formulários inclusivos: perguntar sem excluir
Antes de adicionar um campo, pergunta-te se ele é necessário. Quando é, há formas de perguntar que incluem mais pessoas.
Acessibilidade para além do contraste
Cores e fontes são apenas o início. Acessibilidade cognitiva, leitores de ecrã, dislexia: o que muda quando alargas a visão.
Linguagem inclusiva no design
Pequenas substituições de palavras que mudam quem se sente convidado pelo produto. Lista prática para emails, copy, scripts de research e UI.
Acessibilidade social
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Sabias que 95% dos vieses cognitivos acontecem sem estarmos conscientes?
Os vieses são atalhos do cérebro para processar informação. Quais são os mais relevantes para Product Design, e como mitigá-los na prática.
Recursos externos
Conheces algo que devia estar neste guia? Envia para hi@uxsnack.com.
Disponível também em English.